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E a danada da inveja, heim... xô! xô!

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quarta-feira, 21 de junho de 2017

Sobre a descolonização do ser (no miudinho), por Zelinda Barros

Nos estudos que propõem a descolonialidade como antídoto para a colonialidade do poder, padrão de dominação em vigência desde a formação do colonialismo moderno, é recorrente o uso de termos como “Estado”, “poder”, “modernidade”, “capitalismo”, “patriarcado”, “racismo”, “epistemicídio” e outros, que fazem referência a fenômenos que envolvem nossa vida de distintas maneiras. Da mesma forma, na construção de retóricas e práticas políticas que promovam a reversão desse padrão de dominação que submete e massacra milhões de pessoas no planeta, também se recorre às noções de igual amplitude: “subjetividade”, “autonomia”, “pluralidade”, “interculturalidade”, etc. Proponho uma reflexão que nos faça começar por um ponto que considero crucial para o fortalecimento dessa luta: a necessidade de descolonizarmos nosso Ser. Não me proponho a teorizar sobre tais conceitos, mas a fazer uma reflexão sobre as experiências vividas numa sociedade colonizada, que incluem as interações que poderão nos construir como sujeitos capazes de darmos o necessário salto em busca do bem viver.
Não será possível alcançarmos as grandes coisas, se não começarmos a valorizarmos aquilo que ainda é considerado pequeno. A teoria foucaultiana sobre poder nos ajuda nessa empreitada ao lembrar-nos que o poder é multidirecional e funciona em rede. Se a coerência entre o que dizemos e o que fazemos ainda é uma utopia nesse nosso horizonte de luta, muito se deve ao fato de desprezarmos a importância das interações cotidianas, que concretizam ou simplesmente banem a possibilidade de construção coletiva com respeito efetivo às nossas diferenças.
A construção de uma subjetividade pautada na competição com a/o outra/o, na disputa de egos para que a nossa opinião prevaleça sobre as demais, na desconsideração das necessidades e limitações das outras pessoas, na busca pelo extermínio da/o outra/o, poderá ser erodida por formas de relacionamento horizontais, que assumam a força de uma contrapoder que, assim como uma pedra lançada no meio de um lago, repercuta em ondas por diferentes dimensões de nossa vida. Para tanto, é importante que valores como lealdade, respeito e cuidado (de si mesma e da outra pessoa) prevaleçam. Ao menos no nosso círculo de relações mais próximo, esses princípios devem reverberar.
Não tem sentido falarmos em descolonização, qualquer que seja o nível em que esse processo opere, se nos recusamos a apoiar quem sabemos precisar de ajuda ou utilizamos como critérios para que esse apoio seja dado a visibilidade que o gesto trará e o reforço positivo à nossa imagem pública. Como falarmos em resistência, se nos aliamos a quem tem mais poder para viabilizarmos projetos individuais, mesmo sabendo da forma desrespeitosa com que tratam pessoas subalternizadas e como atingem negativamente os interesses da coletividade? Como nos levantarmos contra o genocídio, se contribuímos para a morte epistêmica, institucional e física das pessoas que divergem de nós, ainda que estejam no mesmo lado da luta? Isso não significa que me coloco numa posição moralmente superior a você, companheira/o, pois também faço esses questionamentos a mim mesma tentando mudar minhas práticas cotidianas.
A solidariedade, imprescindível no campo das lutas sociais, ainda é entendida de forma simplista, como se sermos aliadas/os impusesse a obrigação de estarmos sempre nos mesmos espaços, concordando com todas as teses formuladas por quem está em evidência. Isso não significa acatarmos a deslealdade, a “puxada de tapete” e o desrespeito, mas, se o espaço para que a divergência e o contraditório se manifestem não estiver sendo assegurado, é um indício de que estamos falhando. Sigamos o princípio político do Estado africano do Kongo, surgido antes da penetração europeia: “Ban abatele, bana batelelwa” (“Onde há quem diz, deve se permitir que haja aquele que contradiz”).
Alguns dos nossos grandes desafios na luta contra processo de desumanização é rompermos com a tendência colonial à padronização e mudarmos o comportamento apenas em relação às pessoas que nos são familiares (afetiva e ideologicamente) ou por conveniência, e sermos verdadeiramente camaradas. E sermos camaradas não nos exime do cumprimento das nossas responsabilidades e da cobrança do cumprimento dos deveres das outras pessoas, pois, como ensinam nossos caboclos: “Camarada bom é irmão do outro. Um, corta o pau; o outro, arranca o toco”.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Sororidade ou "Pirão pouco, o meu primeiro"?



Certos fatos ocorridos no meio ativista negro, especialmente o feminino, me deixam perplexas. Recentemente, fui informada de que fui exposta publicamente de maneira ilegal e desrespeitosa. Quem me informou, alegou uma indignação difícil de acreditar, visto que tomou conhecimento da situação e não me informou imediatamente sobre o ocorrido para que pudesse tomar as providências cabíveis, como seria de se esperar num caso desses. 

É incrível como falamos tanto em sororidade, mas investimos pouco, ou quase nada, em proteção mútua. No fundo, parece-me que não conseguimos nos livrar efetivamente do condicionamento a que o racismo/sexismo nos submeteu historicamente, pois, politicamente, nos comportamos de forma a não tornarmos público nosso desconforto com relação a determinadas práticas e nos conformamos em negociar nosso silêncio em troca das migalhas que o sistema nos oferece. Nos satisfazemos em comentar, muitas vezes em tom malicioso, sobre situações vexatórias ocorridas com pessoas negras sem termos o pudor de, ao fazê-lo, revelarmos nossa covardia, que alimenta mais e mais situações de violência.

Isso não significa, de forma alguma, que concordo com certa prática recorrente, que é fechar os olhos para erros cometidos individualmente ou evitar apontar um problema para não ter que buscar soluções coletivas. Até por minha prática profissional, sou professora, não costumo omitir erros, pois sei que, mesmo doloroso, esse processo é mais construtivo do que simplesmente fazer de conta que está tudo bem e exigir cada vez menos de nós próprias/os. Isso seria, de certa forma, concordar com o próprio racismo, pois um dos seus postulados é que não temos a mesma capacidade de desenvolvimento que outros grupos étnico-raciais. Prefiro ser a “antipática”, que aponta os erros e contribui para corrigi-los, do que a “boazinha”, que aprova todas/os para se livrar do problema e se tornar popular. O que não quer dizer que seja infalível, muito pelo contrário. Se reivindico, para nós negras/os, o reconhecimento da nossa humanidade, luto por isso sabendo que há aspectos negativos e positivos em sermos humanas/os: fome, desigualdade, guerra, destruição do meio ambiente, inveja, arrivismo, mas também amor, solidariedade, altruísmo..
.
Feliz ou infelizmente, não consigo fazer o jogo que muitas/os jogam atualmente, que implica no riso fácil e no tapinha nas costas na presença de alguém e no ataque rasteiro e insidioso em sua ausência.

A reflexão que nos resta a fazer nesse momento é:
Será que o desrespeito às nossas diferenças prevalecerá?
Será que a inveja prevalecerá?
Será que o gosto pela fofoca é maior que o gosto pela vitória alheia?
Será que o gozo pela derrota da/o outra/o é maior que o gozo pela derrota do racismo/sexismo?

domingo, 28 de outubro de 2012

Crônica de uma derrota anunciada...

A derrota do PT na eleição para prefeito de Salvador foi precipitada pelo fogo amigo do próprio partido. Como é que o governador vai mexer com duas categorias poderosíssimas como a dos/as policiais e a das/os professoras/es em ano de eleições e pensar que pode sair ileso disso? Que professoras/es não têm a remuneração que merecem, todo mundo sabe, mas o que ousaram pensar (e se deram mal) é que não ter salários dignos significa não ter PODER. E fica a lição...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Ação Educativa divulga Nota Pública sobre obra polêmica

NOTA PÚBLICA
Livro para adultos não ensina erros 
Uma frase retirada da obra Por uma vida melhor, cuja responsabilidade pedagógica é da Ação Educativa, vem gerando enorme repercussão na mídia. A obra é destinada à Educação de Jovens e Adultos, modalidade que, pela primeira vez neste ano, teve a oportunidade de receber livros do Programa Nacional do Livro Didático. Por meio dele, o Ministério da Educação promove a avaliação de dezenas de obras apresentadas por editoras, submete-as à avaliação de especialistas e depois oferece as aprovadas para que secretarias de educação e professores façam suas escolhas.
O trecho que gerou tantas polêmicas faz parte do capítulo “Escrever é diferente de falar”. No tópico denominado “concordância entre palavras”, os autores discutem a existência de variedades do português falado que admitem que substantivo e adjetivo não sejam flexionados para concordar com um artigo no plural. Na mesma página, os autores completam a explanação: “na norma culta, o verbo concorda, ao mesmo tempo, em número (singular – plural) e em pessoa (1ª –2ª – 3ª) com o ser envolvido na ação que ele indica”. Afirmam também: “a norma culta existe tanto na linguagem escrita como na oral, ou seja, quando escrevemos um bilhete a um amigo, podemos ser informais, porém, quando escrevemos um requerimento, por exemplo, devemos ser formais, utilizando a norma culta”.
Pode-se constatar, portanto, que os autores não estão se furtando a ensinar a norma culta, apenas indicam que existem outras variedades diferentes dessa.  A abordagem é adequada, pois diversos especialistas em ensino de língua, assim como as orientações oficiais para a área, afirmam que tomar consciência da variante linguística que se usa e entender como a sociedade valoriza desigualmente as diferentes variantes pode ajudar na apropriação da norma culta. Uma escola democrática deve ensinar as regras gramaticais a todos os alunos sem menosprezar a cultura em que estão inseridos e sem destituir a língua que falam de sua gramática, ainda que esta não esteja codificada por escrito nem seja socialmente prestigiada. Defendemos a abordagem da obra por considerar que cabe à escola ensinar regras, mas sua função mais nobre é disseminar conhecimentos científicos e senso crítico, para que as pessoas possam saber por que e quando usá-las.   
O debate público é fundamental para promover a qualidade e equidade na educação. É preciso, entretanto, tomar cuidado com a divulgação de matérias com intuitos políticos pouco educativos e afirmações desrespeitosas em relação aos educadores. A Ação Educativa está disposta a promover um debate qualificado que possa efetivamente resultar em democratização da educação e da cultura.  Vale lembrar que polêmicas como essa ocupam a imprensa desde que o Modernismo brasileiro em 1922 incorporou a linguagem popular à literatura. Felizmente, desde então, o país mudou bastante. Muitas pessoas tem consciência de que não se deve discriminar ninguém pela forma como fala ou pelo lugar de onde veio. Tais mudanças são possíveis, sem dúvida, porque cada vez mais brasileiros podem ir à escola tanto para aprender regras como parar desenvolver o senso crítico.

Esclarecimentos sobre o livro “Por uma vida melhor”, para Educação de Jovens e Adultos


Uma frase retirada de seu contexto na obra Por uma vida melhor, cuja responsabilidade pedagógica é da Ação Educativa, vem gerando intensa repercussão na mídia. Diante da enorme quantidade de informações incorretas ou imprecisas que foram divulgadas, a Ação Educativa se coloca à disposição dos órgãos de imprensa para promover um debate mais qualificado, e esclarece:
1.      “Escrever é diferente de falar”. Como o próprio nome do capítulo indica, os autores se propõem, em um trecho específico do livro, a apresentar ao estudante da modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA) as diferenças entre a norma culta e as variantes que ele aprendeu até chegar à escola, ou seja, variantes populares do idioma.
2.      Os autores não se furtam, com isso, a ensinar a norma culta. Pelo contrário, a linguagem formal é ensinada em todo o livro, inclusive no trecho em questão. No capítulo mencionado, os autores apresentam trechos inadequados à norma culta para que o estudante os reescreva e os adeque ao padrão formal, de posse das regras aprendidas. Por isso, é leviana a afirmação de que o livro “despreza” a norma culta. Ainda mais incorreta é a afirmação de que o livro “contém erros gramaticais”.
3.      Para que possa aprender a utilizar a norma culta nas mais diversas situações, o estudante precisa ter consciência da maneira como fala. A partir de então, poderá escolher a melhor forma de se expressar. Saberá, assim, que no diálogo com uma autoridade ou em um concurso público, por exemplo, deve usar a variante culta da língua. Mas não quer dizer que deva abandoná-la ao falar com os amigos, ou outras situações informais.
4.      É importante frisar que o livro é destinado à EJA – Educação de Jovens e Adultos. Ao falar sobre o tema, muitos veículos omitiram este “detalhe” e a mídia televisiva chegou a ilustrar VTs com salas de crianças.  Nessa modalidade, é necessário levar em consideração a bagagem cultural do adulto, construída por suas vivências e biografias educativas.
5.      O livro “Por uma vida melhor” faz parte do Programa Nacional do Livro Didático. Por meio dele, o MEC promove a avaliação de dezenas de obras apresentadas por editoras, submete-as à avaliação de especialistas e depois oferece as aprovadas para que secretarias de educação e professores façam suas escolhas. O livro produzido pela Ação Educativa foi submetido a todas essas regras e escolhido, pois se adequa aos parâmetros curriculares do Ministério e aos mais avançados parâmetros da educação linguística.
6.       A Ação Educativa tem larga experiência no tema, e a coleção Viver, Aprender é um dos destaques da área. Seus livros já foram utilizados como apoio à escolarização de milhões de jovens e adultos, antes de ser adotado pelo MEC, em vários estados.
Conheça o livro! Leia o capítulo na íntegra. Clique aqui para baixá-lo em PDF

Contexto: outros trechos, do mesmo capítulo, não mencionados na cobertura da imprensa
“A língua escrita não é o simples registro da fala. Falar é diferente de escrever”
“Como a linguagem possibilita acesso a muitas situações sociais, a escola deve se preocupar em apresentar a norma culta aos estudantes”
“A norma culta existe tanto na linguagem escrita como na linguagem oral, ou seja, quando escrevemos um bilhete a um amigo, podemos ser informais, porém, quando escrevemos um requerimento, por exemplo, devemos ser formais, utilizando a norma culta”
“Algo semelhante ocorre quando falamos: conversar com uma autoridade exige uma fala formal, enquanto é natural conversarmos com as pessoas de nossa família de maneira espontânea, informal. Assim, os aspectos que vamos estudar sobre a norma culta podem ser postos em prática tanto oralmente como por escrito”

sábado, 14 de maio de 2011

Ações afirmativas na UFBA: é hora de lutarmos pela manutenção e ampliação - BA


C O N V I T E

Na manhã de 17 de maio de 2004, o auditório da Reitoria da Universidade Federal da Bahia (UFBA) ficou pequeno para abrigar estudantes negros/as, ativistas, representantes de entidades negras, parlamentares e docentes. É que aconteceria uma sessão histórica do Conselho Superior: a votação de um programa de políticas de Ações Afirmativas, resultado das investidas de um grupo de entidades, coordenado pelo CEAFRO/ CEAO/UFBA - denominado Comitê Pró-cotas. O programa aprovado não foi a proposta inicial, mas  fruto de embates e negociações entre a sociedade civil e a UFBA.

Aprovado para vigorar 10 anos, o Programa de Ações Afirmativas da UFBA passará por avaliação institucional em 2014, o que definirá a continuidade ou não do mesmo. Neste sentido, surge a necessidade de discutirmos os resultados e limites das ações implementadas a fim de traçarmos estratégias coletivas na luta por políticas educacionais antirracistas.

Propomos o início de uma ampla discussão sobre a adoção do Programa de Ação Afirmativa na UFBA - contextualização histórica, análise dos impactos desse programa etc,  a partir da roda de conversa: Sete anos de cotas na UFBa. E daí?

LOCAL - Auditório Milton Santos, no CEAO,  Pça Inocêncio Galvão, 42, Largo
Dois de Julho – SSA/Ba
DATA – 17 de maio de 2011, 3ª feira
HORÀRIO - Das 17h30 às 21 horas

CEAFRO/UFBa
CONEXÕES DE SABERES
IINSTITUTO CULTURAL STEVE BIKO
 NENU
PROGRAMA PREPARATÓRIO PARA A PROMOÇÃO DA IGUALDADE ÉTNICO-RACIAL NA EDUCAÇÃO (CEAO/UFBA)

sexta-feira, 4 de março de 2011

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Boas Festas e Feliz 2010!!!



(Clique na imagem para ampliá-la)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Pela coletividade (Zelinda Barros)

Movimentos sociais como o feminismo, que nas últimas décadas têm sido responsáveis pela renovação da agenda política e reorientação na formulação de políticas públicas, convivem em seu momento atual com uma fragmentação interna que, em vez de refletir a saudável pluralidade política na luta por afirmação de direitos de maiorias tornadas minoritárias, tem sido extremamente prejudicial à ampliação de suas ações. Na medida em que interesses de grupos que acederam ao poder público formal reproduzem práticas outrora denunciadas quando se constituíram em forças com propósitos transformadores, a credibilidade dos grupos que ainda se dedicam seriamente a atividades indispensáveis à consolidação democrática aos poucos é comprometida. É necessária uma mudança similar à que deve ocorrer na economia, voltada majoritariamente à reprodução auto-referenciada de capitais especulativos. A alienação do capital, constituído em valor em si mesmo, é comparável à alienação provocada pela busca do “empoderamento” das mulheres, palavra recorrentemente utilizada como artifício justificador da manutenção das hierarquias racial e de gênero. Muitas ações que são ditas “empoderadoras”, como oficinas, cursos e outros, muitas vezes escondem justamente o seu compromisso com a manutenção de fronteiras e reprodução de práticas discriminatórias ou contribuem para que as desigualdades prossigam intocadas. Não é o caso de abolirmos tais iniciativas, que em si não são prejudiciais, mas prestarmos atenção ao processo no qual elas são forjadas. Muitas vezes persiste a mesma distribuição desigual de atribuições, a mesma busca pelo destaque individual e o desrespeito às diferenças que se diz considerar. Na estrutura formal, chegamos a um ponto em que os grupos que defendem interesses de gênero e raciais se alternam e são mantidas divisões que contribuem para o insucesso das ações propostas. Ou não há, no contexto atual, nenhum elemento que nos credencie a afirmar a possibilidade de construção de identidades coletivas - o que eu ainda duvido, ou temos aí a necessidade de uma profunda reflexão acerca dos rumos que estamos imprimindo à luta por interesses coletivos e da alteração desses rumos. Insisto mais uma vez: a pluralidade é saudável e necessária, mas o desrespeito, a desqualificação, a auto-promoção, a busca desenfreada pelo “poder” são fortes ingredientes de um processo estéril e autofágico em movimentos em que são propostas ações que visem à coletividade.

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Pela coletividade is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 India License.

domingo, 30 de novembro de 2008

Para mudar, alter-estima

A partir da observação de intervenções de colegas feministas e da experiência de trabalho com estudantes cotistas nos últimos meses, tenho refletido bastante sobre as ações desenvolvidas em oficinas e sobre sua efetividade. Durante muito tempo investimos na “recuperação da auto-estima” dos(as) participantes, como se ela garantisse, em grande parte, o desdobramento satisfatório das intervenções. Claro que é importante que qualquer pessoa reconheça e goste de si mesma, mas hoje penso que a consideração da auto-estima como prioritária na mobilização à ação social transformadora não é suficiente, pois o principal problema não é o “eu”, mas o(a) “outro(a)”. O investimento deve ser feito na “alter-estima”, pois falta muita consideração e respeito ao outro, e muitas vezes a supervalorização de nós mesmos(as) não nos permite ver e considerar as necessidades das outras pessoas com as quais interagimos - mesmo aquelas que consideramos “iguais”. Não falo da coletividade anônima referida nos estudos macrossociológicos. Me lembro de uma queixa feita por um ativista negro a respeito da incoerência entre aqueles(as)que proferem discursos impactantes acerca de questões coletivas, mas são incapazes de sequer dar um “Bom dia” a pessoas que ocupam posições de menor status ocupacional, como porteiros, zeladores(as) e garis, ou até mesmo companheiros de ativismo de menor prestígio.

Atualmente, as pessoas estão tão auto-referenciadas que até mesmo um “Oi, tudo bem?” se tornou um ritual vazio, pois quem pergunta não quer saber a resposta e nem mesmo pára para ouvir se você está realmente bem ou mal. Eu vejo com muito bons olhos o avanço, em termos institucionais, provocado pela ação dos movimentos sociais, mas percebo que necessitamos agora de um redimensionamento. Institucionalmente, muito já foi e ainda precisa ser feito, mas não devemos perder de vista que instituições são feitas por pessoas, que estas pessoas têm sentimentos, aspirações e agem a partir de seus próprios lugares, suas vivências, perspectivas... é preciso tocar as pessoas, trazê-las para a ação coletiva não somente porque têm a mesma religião, cor, gênero ou ideologia que nós, mas porque a vida na terra depende de todos(as). E esta convergência é necessária não apenas entre aqueles(as) que tradicionalmente são vistos(as) e se vêem como oponentes mas, principalmente, entre os(as) chamados(as) “companheiros(as)”, que muitas vezes se calam vergonhosamente quando vêem o(a) outro(a) em perigo ou em situação vexatória. Me lembro de um colega de trabalho de meu pai, “amigo” de farras constantes que, num assalto ao local onde trabalhavam, fugiu e o deixou pra trás sem nem mesmo prestar socorro enquanto o amigo era vítima de um atentado.

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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Representações do pensamento social acerca do casamento inter-racial (Zelinda Barros)

RESUMO

Alguns estudos demonstram como opera o conceito de raça em nossa sociedade e a persistência da interdição do casamento entre indivíduos considerados racialmente diferentes, o que nos leva a refletir sobre a importância e a influência da raça como categoria social e as representações existentes a respeito do casamento inter-racial. Neste artigo, são apresentadas e discutidas as representações sociológicas dominantes sobre o casamento inter-racial, muitas vezes reduzidas a uma visão monológica das relações raciais. Após criticar esta concepção, discuto as mudanças ocorridas no casamento e, por fim, proponho uma nova maneira de analisar os casamentos inter-raciais.

Palavras-chave: casamento, raça, representações, casais inter-raciais.

Onde encontrar? http://www.enfoques.ifcs.ufrj.br/marco08/03.htm

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O poder que sacia a sede dos(as) gananciosos(as)
é água salobra pra o meu paladar...

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

"Pouco conhecimento faz com que as criaturas se sintam orgulhosas. Muito conhecimento, que se sintam humildes. É assim que as espigas sem grãos erguem desdenhosamente a cabeça para o céu, enquanto que as cheias a baixam para a terra, sua mãe".

Leonardo da Vinci

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

"O tom da cor", por Miriam Leitão

Só há o pós, depois do antes. Só se chega, depois da caminhada. Só se reúne o que esteve separado. Entender a diferença não é querê-la, pode ser o oposto. A imprensa brasileira, tão capaz de ver as desigualdades raciais nos Estados Unidos, tão capaz de comemorar um presidente negro, prefere, em constrangedora maioria, o silêncio sobre a discriminação no Brasil.

Lendo certos artigos, editoriais e escolhas de edição sobre a questão racial no Brasil, me sinto marciana. Sobre que país eles estão falando, afinal? Com que constroem argumentos e enfoques tão estranhos? Por que ofender com o espantosamente agressivo termo “racialista” quem quer ver os dados da distância entre negros e brancos no Brasil? Não é possível estudar as desigualdades sem pesquisar as diferenças entre os grupos. Não se estuda sem dados. No Brasil, há quem se ofenda com a criação de critérios para levantar os dados de cor como se isso fosse uma ameaçadora “classificação racial”.

Veja-se a cena que está nas abundantes e belas imagens da vitória americana. Há várias tonalidades de pele no grupo que se define como afro-americano. Aqui, sustenta-se que miscigenação é exclusividade nossa e que ela eliminou as diferenças. Os pardos (ou mulatos, como alguns preferem) e os pretos (como define o IBGE) estão muito próximos em inúmeros indicadores e estão muito distantes em relação aos brancos. Medir a distância que ambos têm em relação aos brancos não é uma forma perversa de negar a miscigenação. Medida à distância, é preciso conhecer suas razões. Só assim é possível construir as pontes que ligam as partes.

O presidente Barack Obama fez a campanha por sobre as diferenças raciais, por vários motivos. Primeiro, por estratégia eleitoral: falava para um país majoritariamente branco. Qualquer candidato que escolha apenas um grupo perde a eleição. Ganha-se a eleição construindo-se coalizões. Ele formou a dele com os 90% de votos dos negros, 60% de votos dos latinos e 45% de votos dos brancos. Como há muito mais brancos no país, em termos numéricos, recebeu em termos absolutos mais votos dos brancos. Vitória americana sobre sua própria História.

Outro motivo é que ele veio “após”. Ele não precisava do discurso de reivindicação de direitos, porque ele já foi feito na gloriosa caminhada que conquistou tanto. Um esforço que exige novos passos, mas que é extraordinariamente bem-sucedido.

Obama não precisava acentuar sua condição de negro. Ele é. Por isso, os jornais do mundo inteiro comemoraram “o primeiro presidente negro”. Ele também é filho de branco, mas por que isso não causa espanto? Ora, porque os brancos são a etnia dominante. A novidade está em sua origem negra. O jornalismo destaca o novo, e não o fato banal.

Certas análises no Brasil se perderam em encruzilhadas, tentando adaptar os fatos a suas interpretações do que sejam as diferenças entre os dois países. Lá e cá houve e há discriminação. Lá, não negaram e evoluíram. Aqui, nos perdemos em questiúnculas desviantes, quando o central é: há desigualdades raciais e elas são intoleráveis. Pessoas que pensam assim se esforçam para entender as razões e as raízes das desigualdades, se debruçam sobre os dados, não negam problema existente. A libertação vem da verdade conhecida.

Quem não sabe, a esta altura, que o conceito de “raça” é falso? É bizantino repetir isso. Discutir a desigualdade racial não é a forma de “racializar” o país, mas sim constatar um problema, criado sobre um artificialismo, e que exige superação. Racializado ele já é, com esta vergonhosa ausência dos negros (pretos e pardos), de todos os círculos, do poder no Brasil.

Comemorar a vitória em terra alheia, negando a existência da derrota em casa, é uma escolha que tem sido feita com insistência no Brasil. Na festa de Obama, isso se repetiu. Aqui se vai da negação do problema à condenação de todo tipo de instrumento usado para enfrentá-lo. Tudo é acusado de ser “racialista”: constatar as desigualdades, apontar suas origens na discriminação, tentar políticas públicas para reduzi-las. Argumentam que temos que melhorar a educação pública. Claro que temos, sempre tivemos. É urgente que se faça isso. Alguém discute isso?

A diferença entre a forma como o racismo se manifesta nos Estados Unidos e no Brasil não pode ser usada para perdoar o nosso. Aqui, vicejou a espantosa idéia da escravidão suave, como viceja hoje a idéia de que temos uma espécie de “racismo benigno” ou “apenas” uma discriminação social que atinge os negros pelo mero acaso de serem eles majoritários entre os pobres. São palavras que se negam. Este tipo de violência não comporta o termo “benigno”, como nenhuma escravidão pode ser suave, por suposto.

Segunda-feira vou ao Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais da UFRJ ver o lançamento do Mapa Anual das Desigualdades Raciais. Vou para olhar de novo os dados, conversar de novo com negros e brancos que estudam o assunto, aprender mais um pouco, procurar, esperançosa, algum avanço. Não acho que essa é uma conversa perturbadora da nossa paz social. Não acredito na paz que nega o problema. Acho lindo o sonho dos americanos, mas quero sonhar o meu.

(O Globo, 7/11/2008)

domingo, 10 de agosto de 2008

Recebi esta fábula de uma aluna minha e acho interessante para refletirmos sobre a necessária articulação entre nós mulheres de distintas procedências étnico-raciais, sexuais, ideológicas, religiosas...

"'Um rato, olhando pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote .
Pensou logo no tipo de comida que poderia haver ali.
Ao descobrir que era uma ratoeira ficou aterrorizado. Correu ao pátio da fazenda advertindo a todos:
- Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira na casa!.
'A galinha , disse: ' Desculpe-me Sr. Rato, eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.'
O rato foi até o porco e lhe disse: 'Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira !'.
'Desculpe-me Sr. Rato, disse o porco, mas não há nada que eu possa fazer,a não ser rezar . Fique tranqüilo que o senhor será lembrado nas minhas preces .'
O rato dirigiu-se então à vaca. Ela lhe disse: '- O que Sr. Rato? Uma ratoeira? Por acaso estou em perigo? Acho que não !'
Então o rato voltou para a casa, cabisbaixo e abatido, para encarar a ratoeira do fazendeiro.
Naquela noite ouviu-se um barulho, como o de uma ratoeira pegando sua vítima .
A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia pego.
No escuro, ela não viu que a ratoeira havia pego a cauda de uma cobra venenosa . E a cobra picou a mulher...
O fazendeiro a levou imediatamente ao hospital. Ela voltou com febre.
Todo mundo sabe que para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja de galinha.
O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal .
Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos vieram visitá-la.
Para alimentá-los o fazendeiro matou o porco.
A mulher não melhorou e acabou morrendo.
Muita gente veio para o funeral.
O fazendeiro então sacrificou a vaca, para alimentar todo aquele povo.
Na próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se que, quando há uma ratoeira na casa , toda a fazenda corre risco .

'O problema de um é problema de todos, quando convivemos em equipe.'"

segunda-feira, 14 de julho de 2008

A ilusão do poder (Zelinda Barros)

A luta das mulheres se institucionalizou... e o que isto significa? Inúmeros ganhos, sem dúvida, mas perdas também. Boa parte das perdas está atrelada ao fato de que os ganhos ocorreram num contexto político em que tudo é tornado moeda de troca, até mesmo as convicções morais. Visando “ganhos” para as mulheres, passamos a um estágio em que a dimensão da troca afetiva, da lealdade, do cuidado com a outra passou a ser visto como piegas – o importante é poder...

“Poder” o quê mesmo? Poder dissimular, poder trapacear, poder tecer intrigas, poder definir quem pode, poder, poder, poder... Estamos num turbilhão, mas... para onde vamos?

É preciso um repensar e um agir urgentes no sentido de retomarmos algo que na educação das gerações passadas era dado pela força do exemplo. Como seguir algo ou alguém em que/quem não se acredita? Como agir com solidariedade, se muitas alcançam o poder e beneficiam as que fazem parte do seu círculo, esquecendo tantas outras anônimas? Como ter esperança, se acordos são forjados com facções espúrias, antes antagônicas? Como confiar, se mal damos as costas e começam a nos difamar? Como falar em diversidade, se apenas as “iguais” fazem parte do círculo das eleitas?

É, mulheres, precisamos rever práticas, reforçar o que nos edifica e expurgar o que nos faz mal...
Apesar de tudo, confio na possibilidade de mudança e, assim como Martin Luther King em relação aos brancos, acho que “...precisamos acreditar que os mais desnorteados dentre eles podem aprender a respeitar a dignidade e o valor de cada personalidade humana.”(King, 18/09/1963)

A educação e a abertura à possibilidade de transformação são a base de tudo... quem comer desse pão viverá!

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Mais poesias... sentir e pensar... e agir!!! (Zelinda Barros)

MORTE

Todos negam o teu direito
Julgam que a ti podem preterir
Mas tu,
dama negra e bela
Leva-nos a um lugar mágico
e misterioso
onde todo gênio rende-se
à tua mais verdadeira sabedoria.
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SOLITUDE

A mim não faltam palavras,
A mim não faltam pensamentos
O que faltam são pessoas
A mim faltam momentos.

Triste sina
a de quem pensou que podia
E passou a vida a achar-se só
Pois, quando de súbito acorda
Vê-se impedido de desatar este nó.
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Os olhos vêem,
A boca sorri
Nem tudo o que vêem é belo
E o sorriso ainda permanece
O alimento à visão é raro
A boca alimenta-a com um sorriso.
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Nunca te vi
Sempre te admirei
Costumo te sentir
Nunca contigo estarei

Recolho-me ao som do silêncio
Que é a voz da solidão
Meu corpo com os olhos
a tua presença anseia
A mente abranda
o calor do coração
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Nada sei de novo
Tudo em mim já foi visitado
Unicamente visitado
Por mim mesma
Nas saídas sorrateiras da imaginação

Viajei em círculos
Não dei voz ao cansaço
Hoje,
vejo-me vazia de procura
Quero alguém
que resgate essa busca,
essa curiosidade por mim mesma.
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Gosto do nada,
que em si encerra mil possibilidades
Não simpatizo com o tudo,
que parece não admitir o vazio

A sensação de saciedade
me incomoda
Admiro a procura,
A busca constante
amo o instigante.

O nada sobrepõe-se ao tudo
mal feito
às esperanças inscientes
às necessidades vãs
aos desejos válidos
não saciados.
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Minha mente navega
como uma nau
desbravando novas terras
nesse mundo nodo
chamado imaginação

Não busco terra firme
Aprecio apenas a viagem
Que seja insólita enquanto dure!
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VIDA
Amiúde fútil
nas imagens que nos transmite
Cega
aos apelos da sorte
Nefasta
àquele a quem abraça a morte
Alegria
dos amorosos consortes
Tristeza
Do fraco, antes forte
Útil
como a cicatriz ao corte
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Me preocupa
A carência dos desvalidos
A insciência dos alienados
O arrivismo indecente
Me comove
A vida dos marginalizados
A ingenuidade dos carentes
A fraqueza da mente

Me revolta
A usura dos “ricos”
A desunião
O desamor
O desapego ao chão...
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POLIT...

Sórdidos otários
Arrivistas irracionais
Abutres mercenários
Homens de mente insana
de coração vazio

Políticos
nas palavras
Politiqueiros
nas ações
Raça de vermes!


Oxalá sejam expatriados
Sepultados
na sua pequenez moral
e materialismo burro.
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Sinto-me suja
Apesar da água
Sinto-me doente
Apesar da ciência
Sinto-me só
Apesar das pessoas

Sinto-me desprotegida
Apesar da polícia
Sinto-me em desarmonia
Apesar da natureza
Sinto-me... excluída
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Não se engane
Nunca poderei saciar-te
Matar tua fome,
tua sede

Sou como água salobra
Ao teu paladar
sou juá bravo
Sou ácido a corroer-te os sentimentos
Sou da cobra
o letal veneno
Leve à outra presença o teu pensamento
Não faça de tua vida um
Tor-men-to


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FILHA DA RUA

Menina descalça
Menina guerreira
A lua mãe
Pra ti sorri
à noite
Te aconchega
com sua luz materna extremosa
Promete dias melhores e sonhos
Pra colorir tua vida
curar tuas feridas

Não esqueça
em ti ela está presente
Toda noite não dorme
pra te agradar
As estrelas piscam brilhantes
pra teus sonhos iluminar
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PAISAGENS
Janela aberta
Visões passageiras
Por ti passam o moleque
A morena faceira

Capta momentos
Alimenta pensamentos
Tens a visão do homem na lida
És o esboço
Da magnânima vida!
PICHADOR DA CIDADANIA

Desce!
Seus gestos não são verdadeiros
Sua mente é vil e traiçoeira
Desce!
Iguala-se à sua altura moral,
à sua consciência perniciosa

Desce!
Devolve o lugar a quem trabalha,
a quem luta,
sua e, sobretudo,
raciocina
(Fica a promessa de figurar na história como é devido aos de sua espécie!)
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MARGINALIZADOS

Esbarram-se nas vielas
Convivem com a beleza pungente da vida
que só tem valor nas mãos do artista
Vivem (?!)
Conterrâneos da tristeza,
marginalizados
Desiguais?
Não. Humanos.
Portadores da condição que oprime,
insensibiliza,
flagela.
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BRILHO VÃO

Brilhar?
Como,
se a miséria ofusca os olhos dessa gente?
Quem há de me ver brilhar?
Como transpor as barreiras
E chegar à mente,
À alma
E transformar
A POBREZA MORAL
Em
SOLIDARIEDADE?
O quê?
Não diga que sou utopista
que sou ingênua
que sou rancorosa
por não querer ignorá-los e
RECOMEÇAR

Pergunto:
Feito o castelo de boas expectativas
Vê-lo destruído a ca-da-di-a
Como não sonhar,
Acreditar,
Decepcionar-se
RESSENTIR-SE?
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A fuga é útil
Amo a ele
Mas não ele a mim
Então sofro
Sofro só,
choro sozinha
E fujo.

Busco risos,
busco festa,
busco vinho,
Ele não encontro
Então, fujo.

Procuro disfarçar
Invento emoções que não sinto
Encubro a mim mesma
Continuo nessa procura
Busco o amor dele – ÚNICO
Espero que encontre o meu
Não consigo
Então... fujo.
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Construo castelos de sonhos
E me aprisiono neles
Num cárcere
Feito de imagens

Crio fantasias
Imagino um mundo que não me pertence
E ouso reinar sobre ele
Quando verdadeiramente me vejo
Encontro-me só

As pessoas que me cercam
quase não as vejo
Procuro outras
E quando não as encontro
fabrico

Me relaciono de forma íntima
Com seres etéreos
Travestidos de humanos
Enxergo olhares de ofuscante brilho
Mas... não sou eu quem os desperta

Penso e converso animadamente
com esses meus personagens
Amo, brinco,
brigo com eles
Talvez por medo de verdadeiramente amar,
brincar,
brigar
com pessoas.
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No primeiro contato
Foi como um camponês sem jeito
Sem saber como fazer para deixar à vontade um visitante citadino
Que me senti
Senti que o meu trivial,
o meu feijão de arroz acadêmico
poderia servir para, ao menos, estabelecer um contato
Porém,
percebendo que a minha intelectualidade de superfície não poderia proporcionar um contato que transcendesse o superficial
calei-me
Passei a observar e a maravilhar-me,
A aproveitar cada momento com você
Sua sutileza e seu olhar (Ah! O seu olhar...) me encantaram
Confesso que esses dias foram especialmente reveladores para mim
Encontrei-me com um ser que não sabia possível ser revelado a mim mesma (e, por mim mesma)
Graças a você...
Não sabia que tinha esse potencial
Não sei se vamos,
um dia
voltar a nos encontrar
Guardo essa lembrança-agradecimento
Lembrança
da possibilidade transformadora que foi o nosso encontro
Agradecimento,
por fazer de mim alguém mais apta
a captar os sinais de estar no mundo
com múltiplas pessoas,
dotadas de múltipla capacidade de amar.
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SOLIDÃO

Quando se está só
o mundo é mudo
mas toca bem no fundo
um samba de uma nota só.

Quando se está só
o tempo é longo
porém,
aguda e viva é a dor
de não poder ficar só

Se não estou só,
se a solidão não vem a mim por um segundo
não posso gozar da companhia
de quem me faz sol,
me faz mundo.
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AMIGOS

Amigos andam
Amigos abraçam
Amigos acompanham
Amigos aconselham

Amigos amam
Amigos querem bem
Amigos vigiam
Amigos brigam também

Quem não sabe ser amigo
Quem não sabe amar ninguém
Não enxerga a si mesmo
Nem o bem refletido em alguém.
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ESPERANÇA

Às vezes fala
Às vezes cala
Às vezes grita
Muitas vezes acalma

Às vezes choro
Muitas vezes riso
Às vezes corrida
Muitas vezes caminhada

Às vezes desilusão
Muitas vezes certeza
Às vezes desespero
Sempre, esperança.
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Quero a brisa
A brisa nordestina que traga fala mansa
Quero o sal
O sal
que o doce ressalta
Quero o sol
O sol
Reinando nas matas

Quero o dia
O dia
que abriga a noite
e a madrugada fria
Quero a vida
a vida que habita em mim
a vida que teu existir anuncia.
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O amor não morre,
Cochila
O amor não nega,
Abraça
O amor não prende
Liberta
O amor não tolhe
Incentiva
O amor não tem ciúme
Confia
O amor não passa
Permanece
O amor não une corpos
Une vidas
O amor não basta em si
Amplia-se
O amor não é indivisível
É compartilhado