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E a danada da inveja, heim... xô! xô!
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Mais poesias... sentir e pensar... e agir!!! (Zelinda Barros)
Todos negam o teu direito
Julgam que a ti podem preterir
Mas tu,
dama negra e bela
Leva-nos a um lugar mágico
e misterioso
onde todo gênio rende-se
à tua mais verdadeira sabedoria.
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SOLITUDE
A mim não faltam palavras,
A mim não faltam pensamentos
O que faltam são pessoas
A mim faltam momentos.
Triste sina
a de quem pensou que podia
E passou a vida a achar-se só
Pois, quando de súbito acorda
Vê-se impedido de desatar este nó.
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Os olhos vêem,
A boca sorri
Nem tudo o que vêem é belo
E o sorriso ainda permanece
O alimento à visão é raro
A boca alimenta-a com um sorriso.
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FÃ
Nunca te vi
Sempre te admirei
Costumo te sentir
Nunca contigo estarei
Recolho-me ao som do silêncio
Que é a voz da solidão
Meu corpo com os olhos
a tua presença anseia
A mente abranda
o calor do coração
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Nada sei de novo
Tudo em mim já foi visitado
Unicamente visitado
Por mim mesma
Nas saídas sorrateiras da imaginação
Viajei em círculos
Não dei voz ao cansaço
Hoje,
vejo-me vazia de procura
Quero alguém
que resgate essa busca,
essa curiosidade por mim mesma.
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Gosto do nada,
que em si encerra mil possibilidades
Não simpatizo com o tudo,
que parece não admitir o vazio
A sensação de saciedade
me incomoda
Admiro a procura,
A busca constante
amo o instigante.
O nada sobrepõe-se ao tudo
mal feito
às esperanças inscientes
às necessidades vãs
aos desejos válidos
não saciados.
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Minha mente navega
como uma nau
desbravando novas terras
nesse mundo nodo
chamado imaginação
Não busco terra firme
Aprecio apenas a viagem
Que seja insólita enquanto dure!
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VIDA
Amiúde fútil
nas imagens que nos transmite
Cega
aos apelos da sorte
Nefasta
àquele a quem abraça a morte
Alegria
dos amorosos consortes
Tristeza
Do fraco, antes forte
Útil
como a cicatriz ao corte
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Me preocupa
A carência dos desvalidos
A insciência dos alienados
O arrivismo indecente
Me comove
A vida dos marginalizados
A ingenuidade dos carentes
A fraqueza da mente
Me revolta
A usura dos “ricos”
A desunião
O desamor
O desapego ao chão...
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POLIT...
Sórdidos otários
Arrivistas irracionais
Abutres mercenários
Homens de mente insana
de coração vazio
Políticos
nas palavras
Politiqueiros
nas ações
Raça de vermes!
Oxalá sejam expatriados
Sepultados
na sua pequenez moral
e materialismo burro.
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Sinto-me suja
Apesar da água
Sinto-me doente
Apesar da ciência
Sinto-me só
Apesar das pessoas
Sinto-me desprotegida
Apesar da polícia
Sinto-me em desarmonia
Apesar da natureza
Sinto-me... excluída
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Não se engane
Nunca poderei saciar-te
Matar tua fome,
tua sede
Sou como água salobra
Ao teu paladar
sou juá bravo
Sou ácido a corroer-te os sentimentos
Sou da cobra
o letal veneno
Leve à outra presença o teu pensamento
Não faça de tua vida um
Tor-men-to
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FILHA DA RUA
Menina descalça
Menina guerreira
A lua mãe
Pra ti sorri
à noite
Te aconchega
com sua luz materna extremosa
Promete dias melhores e sonhos
Pra colorir tua vida
curar tuas feridas
Não esqueça
em ti ela está presente
Toda noite não dorme
pra te agradar
As estrelas piscam brilhantes
pra teus sonhos iluminar
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PAISAGENS
Janela aberta
Visões passageiras
Por ti passam o moleque
A morena faceira
Capta momentos
Alimenta pensamentos
Tens a visão do homem na lida
És o esboço
Da magnânima vida!
PICHADOR DA CIDADANIA
Desce!
Seus gestos não são verdadeiros
Sua mente é vil e traiçoeira
Desce!
Iguala-se à sua altura moral,
à sua consciência perniciosa
Desce!
Devolve o lugar a quem trabalha,
a quem luta,
sua e, sobretudo,
raciocina
(Fica a promessa de figurar na história como é devido aos de sua espécie!)
__________ x __________
MARGINALIZADOS
Esbarram-se nas vielas
Convivem com a beleza pungente da vida
que só tem valor nas mãos do artista
Vivem (?!)
Conterrâneos da tristeza,
marginalizados
Desiguais?
Não. Humanos.
Portadores da condição que oprime,
insensibiliza,
flagela.
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BRILHO VÃO
Brilhar?
Como,
se a miséria ofusca os olhos dessa gente?
Quem há de me ver brilhar?
Como transpor as barreiras
E chegar à mente,
À alma
E transformar
A POBREZA MORAL
Em
SOLIDARIEDADE?
O quê?
Não diga que sou utopista
que sou ingênua
que sou rancorosa
por não querer ignorá-los e
RECOMEÇAR
Pergunto:
Feito o castelo de boas expectativas
Vê-lo destruído a ca-da-di-a
Como não sonhar,
Acreditar,
Decepcionar-se
RESSENTIR-SE?
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A fuga é útil
Amo a ele
Mas não ele a mim
Então sofro
Sofro só,
choro sozinha
E fujo.
Busco risos,
busco festa,
busco vinho,
Ele não encontro
Então, fujo.
Procuro disfarçar
Invento emoções que não sinto
Encubro a mim mesma
Continuo nessa procura
Busco o amor dele – ÚNICO
Espero que encontre o meu
Não consigo
Então... fujo.
__________ x __________
Construo castelos de sonhos
E me aprisiono neles
Num cárcere
Feito de imagens
Crio fantasias
Imagino um mundo que não me pertence
E ouso reinar sobre ele
Quando verdadeiramente me vejo
Encontro-me só
As pessoas que me cercam
quase não as vejo
Procuro outras
E quando não as encontro
fabrico
Me relaciono de forma íntima
Com seres etéreos
Travestidos de humanos
Enxergo olhares de ofuscante brilho
Mas... não sou eu quem os desperta
Penso e converso animadamente
com esses meus personagens
Amo, brinco,
brigo com eles
Talvez por medo de verdadeiramente amar,
brincar,
brigar
com pessoas.
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No primeiro contato
Foi como um camponês sem jeito
Sem saber como fazer para deixar à vontade um visitante citadino
Que me senti
Senti que o meu trivial,
o meu feijão de arroz acadêmico
poderia servir para, ao menos, estabelecer um contato
Porém,
percebendo que a minha intelectualidade de superfície não poderia proporcionar um contato que transcendesse o superficial
calei-me
Passei a observar e a maravilhar-me,
A aproveitar cada momento com você
Sua sutileza e seu olhar (Ah! O seu olhar...) me encantaram
Confesso que esses dias foram especialmente reveladores para mim
Encontrei-me com um ser que não sabia possível ser revelado a mim mesma (e, por mim mesma)
Graças a você...
Não sabia que tinha esse potencial
Não sei se vamos,
um dia
voltar a nos encontrar
Guardo essa lembrança-agradecimento
Lembrança
da possibilidade transformadora que foi o nosso encontro
Agradecimento,
por fazer de mim alguém mais apta
a captar os sinais de estar no mundo
com múltiplas pessoas,
dotadas de múltipla capacidade de amar.
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SOLIDÃO
Quando se está só
o mundo é mudo
mas toca bem no fundo
um samba de uma nota só.
Quando se está só
o tempo é longo
porém,
aguda e viva é a dor
de não poder ficar só
Se não estou só,
se a solidão não vem a mim por um segundo
não posso gozar da companhia
de quem me faz sol,
me faz mundo.
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AMIGOS
Amigos andam
Amigos abraçam
Amigos acompanham
Amigos aconselham
Amigos amam
Amigos querem bem
Amigos vigiam
Amigos brigam também
Quem não sabe ser amigo
Quem não sabe amar ninguém
Não enxerga a si mesmo
Nem o bem refletido em alguém.
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ESPERANÇA
Às vezes fala
Às vezes cala
Às vezes grita
Muitas vezes acalma
Às vezes choro
Muitas vezes riso
Às vezes corrida
Muitas vezes caminhada
Às vezes desilusão
Muitas vezes certeza
Às vezes desespero
Sempre, esperança.
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Quero a brisa
A brisa nordestina que traga fala mansa
Quero o sal
O sal
que o doce ressalta
Quero o sol
O sol
Reinando nas matas
Quero o dia
O dia
que abriga a noite
e a madrugada fria
Quero a vida
a vida que habita em mim
a vida que teu existir anuncia.
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O amor não morre,
Cochila
O amor não nega,
Abraça
O amor não prende
Liberta
O amor não tolhe
Incentiva
O amor não tem ciúme
Confia
O amor não passa
Permanece
O amor não une corpos
Une vidas
O amor não basta em si
Amplia-se
O amor não é indivisível
É compartilhado
Rasgos poéticos (Zelinda Barros)
Não me apego ao passado
Não necessito do presente
Agarro-me ao fugidio futuro
Com a força das mãos
E a incerteza da mente.
Não convivo bem com o pré-estabelecido
É preguiça que não tenho
Sou um ser pensante
Não assimilo preconceitos
Antes, os rejeito
Pois têm o valor do que é gasto, inútil
__________ x __________
Histórias ocorridas
Ilusões passadas
Pessoas em diligência
Povo lento em sua
Diária maratona
Porvir indefinidamente impalpável.
__________ x __________
Aos meus inimigos,
perdôo
Aos falsos amigos,
repudio
Aos que me evitam,
respeito
aos que com falsos sorrisos a mim cobrem
Ah! Pra esses,
Guardo doces beijos amargos...
__________ x __________
Navegue num rio de lágrimas
E chegue a uma ilha de sonhos
e de desejos satisfeitos
ou... a um abismo de angústia
e frustração.
__________ x __________
O mal por si só não se destrói
Usando bem a criatividade
E abusando da solidariedade
Podereis controlá-lo.
__________ x __________
Falo a verdade pois a amo
Não aquela inventada, refutável
E sim a que é de mim nascida
A que vem das minhas origens
A que faz de mim livre e orgulhosa
Ciente da importância do grito
E da força do silêncio
A que me faz... cidadã.
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A MORTE, QUE PENA...
Loucos! Querem tirar o bem
de quem dele fez mal
Querem dizer sim à ignóbil execução
Querem calar o grito, o crime,
a má ação
E sujar de sangue a consciência numa atitude mortal
Vão implantar a pena
Com um ato vão tirar de cena
Aquele que da vida sonhada
não sentiu o sabor
Aquele que não respeitou a morte
e à vida não deu valor...
__________ x __________
Novos tempos,
novos dias,
Novas técnicas,
novas tecnologias
Novo momento,
nova era
Velhos preconceitos,
velhas quimeras...
Época de viver
Época de amar
Época de saber falar e escutar
Época de discorrer,
De lutar.
__________ x __________
Insone
em noite de lua cheia
Lobo uivante,
Nuvens de algodão
Insano
pelos desejos selvagens
que a mente audaz impõe
ao coração.
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Novas tendências,
novos mitos
Jogos de poder
e conflitos
Seguem-se os velhos ritos
Continuam dominando
[os ricos]
Instauram-se novos limites
Novas ordens sociais
Promovem a fome e a guerra
Negam a disseminação da paz.
__________ x __________
quinta-feira, 6 de março de 2008
E o terreno tá cada vez mais árido (Zelinda Barros)
tá cada vez mais árido o terreno...
Grilaram o campo da luta
nos matam de fome, nos violentam
e sorriem...
Sorriem pelo direito assegurado
pela violência debelada
pela morte da sanha de poder
por agora termos como fazer
Mas o terreno tá árido
tá cada vez mais árido o terreno...
Trocaram a letra da lei
querem nos aniquilar com o nosso próprio veneno
põe intenções em meus gestos
de forma que nem mesmo eu sei
E o terreno? Árido
tá cada vez mais árido o terreno
Irmãs desconhecem irmãs
trocam o Nós pelo Eu
competem e correm
e param
competindo na busca do que é(?) seu
E tá árido
cada vez mais árido o terreno...
E o terreno tá cada vez mais árido is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
segunda-feira, 3 de março de 2008
DICAS IMPORTANTES
Quer navegar por uns blogs interessantes? Experimente os blogs abaixo:
www.meublogcomtudodentro.blogspot.com – blog pessoal de Zelinda Barros, antropóloga
www.fazervaleralei.blogspot.com – blog com subsídios(livros, eventos, links) para auxiliar a implementação da Lei nº 10.639/03
www.trabalhartrabalhar.blogspot.com – blog voltado à divulgação de oportunidades de trabalho no Brasil, especialmente na Região Nordeste
www.casosecoisasdogenero.blogspot.com – blog com textos, poesias, divulgação de eventos relacionados à temática Gênero
www.trocatudosemdinheiro.blogspot.com – blog destinado à troca de objetos usados.
www.cursobgirls.blogspot.com – blog do Curso de Formação de B-Girl, promovido pela Rede Aiyê Hip Hop em parceria com o Fundo Ângela Borba de Recursos para Mulheres
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
DISTORÇÃO NA LEI MARIA DA PENHA - PARTE II
"Mulher é presa por agressão com base em lei Maria da Penha
A comerciária Renilda Santos Gonçalves, 19 anos, é a primeira mulher a ser presa em flagrante com base na lei Maria da Penha, criada, basicamente, para proteger o sexo feminino. Ela é acusada de ter jogado uma chaleira com água fervendo na sogra, a costureira Lucileide da Silva Moraes, de 52 anos, em Feira de Santana, e foi presa na manhã desta terça-feira, dia 12.
O sogro da comerciária, o petroleiro aposentado José Elizardo da Silva, de 75 anos, também sofreu com a agressão, quando tentou evitar a briga, e está internado na UTI do Hospital São Matheus.
“Renilda foi autuada pela agressão à sogra, mas o inquérito apresentará como agravante a situação do aposentado”, salientou a delegada titular da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam), Martine Veloso.
Lucileide passa bem, apesar de ter sofrido queimaduras em boa parte da barriga. Renilda está presa no xadrez do Complexo Policial Investigador Bandeira. As duas se acusam mutuamente de ciúmes de Rogério Moraes Amorim, de 22 anos, filho da vítima e noivo da comerciaria.
A Tarde, CIDADES, 12/02/08."
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
A INCOERÊNCIA É O REGIME (Zelinda Barros)
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
MOVIMENTO DE MULHERES: COM OU SEM MULHERES? (Zelinda Barros)
A institucionalização dos movimentos sociais - dentre eles o de mulheres, que hoje têm boa parte de seus quadros integrando as estruturas de governo, põe a nu questões não resolvidas pelos movimentos e que precisam ser entendidas não apenas como referidas a um movimento estratégico de cooptação pelo Estado ou à traição das(os) companheiras(os) seduzidas(os) pelo poder. A penetração de espaços até então não ocupados por mulheres, por exemplo, traz à tona o problema do relacionamento com o poder, do modo como lidamos com a possibilidade concreta de reversão de uma situação que pode contribuir para a modificação das nossas vidas.
As explicações de alcance macro podem ser tentadoras no sentido de dimensionarmos o problema como algo que não atinge exclusivamente a um determinado segmento de mulheres, mas a todas nós. No entanto, elas fazem com que percamos de vista minúcias que, para nós mulheres, que ao longo de nossa trajetória histórica nos ocupamos das “pequenas coisas”, são importantes para definição de um novo rumo na luta política. O sistema de dominação que impõe a nós mulheres a situação de desvantagem em relação aos homens, até mesmo por nossa própria iniciativa em favor deles, se alimenta de uma lógica que muitas vezes reproduzimos na tentativa de esboçar uma reação. Revela-se o mesmo desprezo pelo que é considerado de menor importância, de menor impacto: a relação face a face. É justamente a proximidade das relações que as mulheres historicamente forjaram que pode servir como potencial transformador da vida de todas as mulheres, não apenas das que são consideradas empoderadas ou que tentam a via do empoderamento das mulheres através do ilusório empoderamento de algumas poucas representantes. Não podemos cair na armadilha de pensar que a ocupação de determinado cargo de prestígio ou que o gozo das benesses desfrutadas por ocuparmos certas posições de poder repercutirão sobre as outras mulheres com a força de um exemplo a ser seguido, como a possibilidade de que “é possível chegar lá”.
Mesmo quando nos pensamos grandes ainda somos pequenas. O aumento da força de uma depende do aumento da força de todas, o que implica em identificar nossas diferenças, mas também considerar que os privilégios que detemos e fazemos questão de manter podem nos levar, no máximo, a um conforto individual e instável, mas que, se não forem transformados em direitos coletivos, não contribuirão efetivamente para a mudança significativa de um quadro de dominação secular que ajudamos a construir. Penso não somente nas mulheres que alcançaram posições de prestígio profissional, mas também naquela dona de casa da periferia que esquece da vizinha quando, a custo de muita economia, consegue comprar um carro popular usado e passa a se comportar “como se tivesse o rei na barriga”.
A influência cada vez mais crescente dos meios de comunicação na pressão pelo consumo desenfreado retira o foco de nós mesmas e passamos a, como robôs, perseguir a busca por aquisição de bens. Nesta tentativa desesperada de termos cada vez mais coisas, mesmo aquelas das quais não necessitamos, esquecemos das pequenas coisas que podem fazer a diferenças para outras. Falo não de bens materiais, mas de relacionamento, de considerar a outra, se importar com a sua vida, suas angústias e sofrimentos.
Na situação de competição frenética em que estamos colocadas não nos interessa o que a outra pensa, mas apenas que ela deve ser ou pensar para que possar ser considerada uma igual. É aí que mora o perigo, pois a luta das mulheres passa pela convergência de pessoas que necessitam, apesar das diferenças, se unir em prol de uma luta que mude a vida de todas, não importando se ela tenha a cor da pele ou cabelo que mais me agrade ou que diga exatamente aquilo que eu quero ouvir. Alguns grupos organizados, como partidos e associações, exercem um papel devastador para a consolidação da luta feminista, pois polarizam os grupos e dividem com base em critérios que, para nós mulheres, não nos tem contemplado nem se traduzem em resultados positivos na luta pela mudança da nossa condição. A socialista, a neoliberal ou a anarquista sofrem, em diferentes graus, dos efeitos da dominação ideológica de gênero, e não é pela via partidária que a luta feminista será fortalecida. Isto não significa que devamos virar as costas para a possível ampliação de espaço no poder formal.
Movimento de mulheres: com ou sem mulheres? is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
DISTORÇÃO NA LEI MARIA DA PENHA (Zelinda Barros)
I - no âmbito da unidade doméstica, compreendida como o espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas;
II - no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa;
III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação.
Parágrafo único. As relações pessoais enunciadas neste artigo independem de orientação sexual.” (Lei 11.340/2006 – Lei Maria da Penha)
O artigo acima traz uma cilada. Ele diz que a lésbica que comete violência contra outra lésbica, estando dentro dos requisitos acima elencados, também pratica violência contra a mulher. Isto não é verdade. E digo o porquê. Qualquer mulher que cometa um ato violento contra outra mulher pode ser caracterizada como violenta, mas ela não pode ser acusada de ter praticado “violência contra a mulher” porque este trata-se de um tipo específico de violência, que está referida à estrutura de gênero da sociedade em que vivemos, que privilegia os homens em detrimento das mulheres. Pode uma despossuída de poder numa estrutura de gênero desigual agredir uma outra despossuída? Você pode afirmar: “Sim, pode”. Também concordo. Entretanto, mesmo que esta mulher, em algum momento, obtenha alguma vantagem em relação à outra a quem agride, seja ela simbólica ou material, continuará sendo uma despossuída tendo em vista a nossa estrutura de gênero. São iguais em desgraça.
E vocês, amigas, o que acham?
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
DESCOMPASSO IDENTITÁRIO (Zelinda Barros)
No último dia 17, estávamos eu e minhas amigas Negramone e Rebeca Sobral reunidas para discutirmos o planejamento do projeto “Curso de Formação de B-girls” quando fomos surpreendidas por um telefonema de uma outra amiga, Karla, que dizia nervosa do outro lado da linha que nosso amigo Chico tinha sido preso na Lavagem do Bonfim. O clima leve, que até então tinha sido mantido intocado, foi quebrado. Chico, negro, rastafári, fora preso quando foi comprar uma cerveja e foi confundido com um dos homens que brigavam num bar. Ao tentar se defender das agressões dos policiais que desferiam golpes indistintamente em todos que ali estavam, foi injustamente preso, humilhado e agredido física e moralmente. Detalhe: os policiais também eram negros!
Essa face perversa do racismo sempre me intrigou... como nos violentamos com tanta agressividade e não temos força grupal suficiente para nos voltarmos contra o sistema racista que nos oprime. Aqueles policiais são pessimamente remunerados, têm que proteger o patrimônio dos mesmos que mantêm sua situação de sujeição e, em vez de se agruparem e buscarem forças para reverter esta situação a seu favor, simplesmente atingem aqueles que são tão ou mais vulneráveis que eles.
A ilusão de poder dada pela farda faz com que cometam as maiores atrocidades inclusive contra seus próprios irmãos, assassinando jovens negros a quem a vida não dá as mesmas oportunidades que os de outros segmentos em nossa sociedade... e eles também são os pais de jovens negros... também eles podem ter seus filhos assassinados injustamente ao serem confundidos com marginais apenas por serem negros... vocês podem afirmar: “Sim, mas identidade não é imposta, o sujeito precisa se reconhecer como tal”. Realmente, aqueles policiais não são negros, pois negros têm consciência do mal que nos atinge e preserva a vida do outro, seu irmão, e não o extermina.
Devemos nos voltar contra o roubo de milhões, bilhões, contra aqueles que nos roubam e a quem a Polícia e a Justiça defendem... não devemos nos voltar contra aqueles que são facilmente identificados como ladrões pela cor de pele... nós somos vítimas, e o que nos roubaram foi algo de um valor inestimável: a nossa propria identidade.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
CONFUSÃO DE TERMOS MANTENDO PRIVILÉGIOS (Zelinda Barros)
Tornou-se lugar comum, no processo de ataque contra as políticas de promoção da igualdade, mobilizar a genética e sua defesa da não existência de raças até mesmo quando os "anti-racistas" universalistas constroem seus argumentos utilizando-se de modo recorrente de termos que fazem referência ao debate racial que eles dizem ter deixado para trás: miscigenação, mulata, diferenças raciais...
O diferencial desta mobilização contemporânea da biologia para a promoção do "bem", ou a defesa da igualdade universal, contra o "mal", ou a sinalização e tentativa de correção de problemas sociais, é a inversão que a acompanha. Se no século XIX argumentos biológicos foram mobilizados para justificar a dominação européia exercida sobre povos não ocidentais, atualmente a suposta afirmação da igualdade dos seres humanos recorre justamente a argumentos biológicos para a manutenção de desigualdades, só que agora revestidos de propósitos humanitários.
Não podemos ignorar que o uso contemporâneo de raça para legitimar desigualdades persiste para além da genética, pois não é preciso acionar o mapa genético de ninguém para verificar a perpetuação de situações de discriminação. Não adianta identificar os 67,1% de ascendência européia de Neguinho da Beija-Flor ou os 96,8% de ascendência africana de Sandra de Sá. Não é de genética que se trata... basta analisarmos o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos segmentos populacionais branco e negro, consultarmos as estatísticas de jovens negros mortos pela Polícia ou verificarmos os dados sobre saúde da população negra para termos certeza de que não se trata disso.
O medo do reconhecimento do racismo como problema social que nos afeta é acompanhado do temor de leis que supostamente institucionalizariam o racismo no país (sic). Na educação, as iniciativas bem-sucedidas que fogem ao procedimento equívoco adotado pela UnB na identificação dos estudantes negros que devem ingressar na universidade e reverter a estatística perversa de apenas 2% de negros no ensino superior são deixadas para trás. Prefere-se recorrer ao argumento de que as cotas ferem o princípio do mérito acadêmico mesmo quando temos resultados de avaliações de universidades como a UFBA, que atestam que o desempenho dos estudantes que ingressaram via sistema de cotas é igual ou superior aos não-cotistas.
Na matéria, recorre-se ao argumento pífio de que após a abolição "...nunca houve barreiras institucionais aos negros no país", mesmo quando tivemos o total descaso do governo brasileiro de então em relação à população negra, que ficou à mercê de sua própria sorte enquanto conviviam com incentivos à imigração européia. A pobreza negra continua a ser atribuída, mesmo depois de 119 anos de "abolição da escravatura", a fatores históricos - como se sobre estes não interferissem fatores políticos e econômicos. Subjaz a este argumento a idéia de que se nós negros somos pobres é porque não tivemos a capacidade de superar as amarras da pobreza com a "criatividade" que outros segmentos tiveram para atualmente desfrutar de posição privilegiada em relação à nossa. Não está implícito aí o pressuposto racista de inferioridade dos negros?
O problema do racismo brasileiro é que ele contribuiu e contribui para a manutenção de privilégios a custa do silêncio e, muitas vezes, da conivência de quem é prejudicado por ele: nós negros. Na medida em que o racismo que não se revela é denunciado por ações que põem à nu o seu modus operandi e mostram de que forma os privilégios são mantidos, surgem ataques fundados em argumentos extremamente frágeis, como a afirmação do "orgulho da beleza de nossas mulatas". Se esta beleza fosse motivo de orgulho não teríamos uma televisão dominada por louras, onde as mulheres negras atuam quase sempre como assistentes e coadjuvantes. Dizer que "...o casamento entre brancos e negros no Brasil é um fato do cotidiano e não causa atenção" é fechar os olhos para o fato de que no país apenas 20% do total das uniões ocorrem entre pessoas de grupos de cor distintos. Apela-se para a nossa histórica "convivência amigável" ignorando-se que a tolerância ao diferente ocorre desde que este não ouse ultrapassar as fronteiras estabelecidas.
A única cegueira verificada no Brasil até então é em relação à situação dos negros e não à cor, pois ela é um poderoso combustível desta máquina que mantém privilégios em virtude do fenótipo dos indivíduos. Um país que ama aos seus cidadãos indistintamente não permite que membros de segmentos específicos gozem privilégios em detrimento de outros.
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